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  • O isqueiro do presidente

    por Luís Augusto Zakaib

     

    “Senhor presidente, chegou uma encomenda para o senhor”, disse o funcionário do gabinete presidencial, entregando-lhe um pacote.

    O presidente abriu. Uma carta e um isqueiro. A carta discorria sobre a fome do povo, informava que um a cada cinco brasileiros estava desempregado, falava da pouca vergonha do poder no Brasil, etc. E terminava assim: “Depois de ler, pode rasgar… ou melhor… queimar”, e um durex grudava o isqueiro ao papel. O presidente obedeceu. E guardou o isqueiro no bolso do paletó.

    À tarde havia sido marcada uma reunião com o ministro da Saúde, que fumava feito um condenado. O tema era justamente a proibição de propaganda de cigarro e a intensificação da campanha antitabagista.

    O ministro, no final da reunião, já estava babando de aflição para acender um cigarro. O presidente percebeu. E deu-lhe o isqueiro de presente.

    Neste mesmo dia, o ministro foi de Brasília para São Paulo. Ao seu lado, na primeira classe obviamente, o senador. Foram conversando amigavelmente, apesar das divergências partidárias. Era proibido fumar no avião, mas é claro que essa ordem não se aplicava ao ministro nem ao senador. Fumaram vários. Falaram de C.P.I., de superfaturamento, de dinheiro, de poder…

    E o isqueiro acabou no bolso do senador.

    Ao chegar em São Paulo, o senador foi recebido por uma comitiva do governador, pois iriam juntos assistir à final do Paulistão. Tinham apostado. O governador ganhou. Apostaram pouco. Somente um isqueiro.

    E assim, aquele isqueiro que o presidente ganhara de um brasileiro indignado, estava agora nas mãos do governador.

    O governador era muito amigo de um deputado estadual e de um deputado federal. Jogavam caxeta juntos. Na mesa verde, cartas de todos os naipes, copos com uísque, cinzeiros cheios de bitucas, maços de charuto e cigarro e um isqueiro. Somente um. Era amarelo ouro. Mas já estava desbotando.

    O isqueiro rodou entre os três a noite inteira. No dia seguinte, já estava no bolso da calça do deputado estadual, que estava indo visitar cidades do interior, inaugurar novos pedágios.

    Numa das cidades, porém, o isqueiro mudou de dono. Foi parar, não se sabe quando nem como, nas mãos do vereador.

    Ficou por lá semanas, até que o vereador, depois de tantas insistências por parte da população, resolveu visitar a periferia e ver de perto os problemas do povo. Ouviu muitas histórias, a grande maioria trágica. Já cansado de tanta reclamação, para na última casa da rua, um barraco simples, caindo aos pedaços, e escuta a voz de uma senhora: “Ô moço! Nóis num têm nem fogo prá isquenta a água”. Sorrindo, o vereador estendeu sua mão e ironicamente falou: “Toma esse isqueiro”. A velhinha agradeceu. Não porque conseguiria finalmente aquecer sua água, mas porque era um presente do “vereadô”. “Ómi importanti”, repetia a todos. Guardou o isqueiro ao lado de uma estátua de Nossa Senhora. “Presente do vereadô”.

    Chega o filho da agência de empregos. Desempregado e fumante. Pegou o isqueiro, tirou do bolso aquele cigarro que havia “serrado” no bar e foi ao terraço. Mas, quando foi acender seu cigarro, tinha acabado o gás.

    publicado originalmente em
    | O Caricato | número 2 | agosto/2003 |

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