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  • Cadê a Ferroviária?

      

    Lua

    por Carlos Augusto Donato
    in memoriam

    Quem não conhece, nem vai saber de quem estou falando. Outro dia encontrei o senhor Osvaldo Salvador na mesa de um dos bares do centro da cidade. De terno preto e barba por fazer, encostou na minha mesa, como quem pedisse um copo de cerveja. Parou e ficou me olhando sério. Eu convidei-o para ele sentar e pedi ao garçom mais uma cerveja. “Bem gelada”, grita ele com o garçom. Pois é, estava ali com o Lua, eterno torcedor da Ferroviária. Como já tinha tomado alguns copos, resolvi fazer umas perguntas para ele:

    Donato – Me conta pra que time você torce de verdade!

    Lua – Eu torço pra Ferroviária e pro Palmeiras!

    Donato – É meu amigo Lua, parece que você não acerta no time não. O Palmeiras na segunda divisão e a Ferroviária, quem diria, na quarta divisão heim.

    Lua – Mas a Ferroviária está no meu coração! Fazer o quê?

    Donato – Mas mesmo na situação que ela está hoje?

    Lua – Mesmo nesta situação! (e já começava a tomar um copo de cerveja).

    Donato – E o que você acha da situação da Ferroviária hoje?

    Lua – A Ferroviária, teve um tempo que era boa. Em 63 e 64 ela era boa. Vinha Palmeiras aqui e ela ganhava. Vinha o São Paulo aqui e ela ganhava. Hoje, cadê? Não tem mais nada! Não tem mais futebol. Esses caras que estão aí não estão com nada. Não sabem nada de futebol. A gente tem que arrumar um time com molecada daqui mesmo. Isso é uma coisa que pesa no nosso coração…

    Donato – E o Palmeiras?

    Lua – O Palmeiras está numa fase ruim também, mas fazer o que né?

    Donato – Isso parece uma urucubaca. Os dois times estão muito mal.

    Lua – Mas essa Ferroviária aí não era assim. Eu estou desde moleque na pensão da Ferroviária e é agora que ela tá numa bába danada né? A Ferroviária nunca esteve assim. Tinha o Dirceu, Catarelli, Rodrigues, Rozan, Fia… Aquele tempo era bom, mas hoje, cadê o futebol da Ferroviária? Não tem… Desapareceu. Os jogadores que estão aí, para mim não servem. Tem que ter jogador bom, que faz gol. Aí ninguém faz gol. Eles só têm amor ao dinheiro. A Ferroviária precisa de amor à camisa, né?

    Donato – se você fosse presidente da Ferroviária, o que faria?

    Lua – Eu ia montar um time com a molecada daqui mesmo, porque os de fora só vêm comer o dinheiro da Ferroviária. De for a não vira nada.

    Donato – Para ajudar a Ferroviária, que grande jogador você gostaria de ver na Fonte?

    Lua – Se não for muito caro, eu trazia o Marcelinho Carioca. Pelo menos ele tem amor à camisa e não ao dinheiro. Isso é uma coisa que pesa para a torcida. A torcida está desesperada com essa palhaçada que tem aí.

    Donato – Você trocaria de time? Se te oferecessem uma caixa de cerveja bem geladinha, você trocaria?

    Lua – Nem assim não vai. Eu gosto muito da Ferroviária. Ela é o meu coração. A Ferroviária e o Palmeiras.

    Donato – como é a vida lá na pensão do São Geraldo?

    Lua – Não sei não. Não sei o que os jogadores querem da vida. Eles só querem dinheiro.

    Donato – Mas você já conviveu com grandes jogadores lá, não é?

    Lua – Já sim. Agora mesmo morreu o Rodrigues e eu nem fui no enterro. Fiquei sentido. O Dirceu também morreu. O Bazzani, por exemplo, não enganava não. Esse jogava bem e tinha amor à camisa.

    Donato – Você seria candidato a presidente da Ferroviária hoje?

    Lua – Hoje não. Hoje eu quero esquecer a Ferroviária. Eu queria fazer uma limpeza naquela pensão lá.

    Donato – E a comida da pensão?

    Lua – A comida tá boa, né. Não tá ruim não. Ela tá joia.

    Donato – Mas quando a Ferroviária estava por cima a comida era melhor? O que vocês comiam?

    Lua – A gente comia frango, salada, arroz, feijão e carne. Hoje a gente come salada, arroz, feijão e só ovo. Pra mim isso não vira nada.

    Donato – Mas os jogadores comendo só isso não jogam mesmo!

    Lua – Tá bom demais pra eles. Não jogam nada! Se quer comer bem, tem que jogar futebol senão não tem jeito.

    Donato – o que você pediria para a torcida da Ferroviária?

    Lua – Pedia um apoio. Pra torcida não xingar o treinador. Eles vão lá pra xingar. Tem que ir lá, torcer e acabou.

    Donato – Você acha que os juízes roubam a Ferroviária?

    Lua – Tem juiz que vem aqui só pra roubar a Ferroviária. Esse mundo de meu Deus não tem juiz bom. Nêgo vem aqui pra roubar mesmo e não tem jeito. Vem só pra comer dinheiro. É uma cambada de sem-vergonha. Se eu fosse juiz não roubava pra ninguém não. Apitava bem.

    Donato – e você acha que seria um bom juiz?

    Lua – Seria sim. Apitava pros dois. Sem violência. Se der botinada sem bola dava vermelho direto. Amarelo não dava não. Não tinha boi não.

    Bom papo, mas parece que o Lua não estava muito afim de falar não. Só dava respostas curtas. Também, imagine uma pessoa que vive dia e noite a vida da Ferroviária e vê o estado em que ela se encontra hoje! Chamei o garçom, paguei as cervejas e deixei mais uma paga pro meu amigo Lua. Pelo menos ele vai dormir um pouco mais aliviado.

    Nota: Esta entrevista foi concedida há mais ou menos um mês atrás (maio 2003), no Rei Bar, um dos inúmeros lugares que esse boêmio frequenta assiduamente. Clima de descontração e desabafo de lado, hoje Lua se depara com um futuro incerto pela frente. A pensão do São Geraldo está sendo desalojada e isso significa que ele e todas as pessoas que lá vivem e que dedicaram grande parte de suas vidas ao time, logo estarão no olho da rua.

    Esse garotinho que apareceu engraxando os sapatos dos jogadores da pensão, que antigamente era onde se encontra hoje o Smirne, materiais de construção, na rua 6, ao longo das décadas, se transformou no maior ícone folclórico da Ferroviária. Mandando o lua embora, a AFE estaria descartando a principal razão de ser de qualquer time: o torcedor fiel. Alguns dirigentes até cogitaram a ideia de mandá-lo a um asilo, mas segundo palavras do próprio Osvaldo Salvador: “Prefiro morar debaixo da ponte”. Será esse o fim trágico da nossa Ferrinha?

     publicado originalmente em
    | O Caricato | número 1 | junho/2003 |

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