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  • Quem foi que te pariu? Dudu Lauand ou Elias Zakaib?

    Algum deles provavelmente já viu a sua bunda.

    DuduElias

    Dudu Lauand, Elias Zakaib, Roberto Schiavon, Carlos Augusto Donato, Kiko Luis e Lucas Lima Foram os protagonistas desse gostoso bate-papo que durou mais de duas horas

    Os médicos ginecologistas Dudu Lauand e Elias Zakaib somam 84 anos de experiência em puxar nenês da barriga das mamães de Araraquara e cuidar da saúde do bem mais precioso da humanidade: o aparelho reprodutor das mulheres, responsável por estarmos agora no mundo e por queremos continuar mais um pouco nele. Quando a equipe do Caricato resolveu conversar com essa dupla, já sabia que muita história boa seria contada, mas não imaginava o quanto seria prazeirosa aquela manhã de sábado. Entre cafezinhos e bolachinhas, assistimos pasmos à metralhadora de Dudu Lauand, que não parou um minuto de disparar piadas e histórias contadas em detalhes minuciosos, com a ajuda de gestos e expressões que várias vezes fizeram o pessoal pedir tempo pra recuperar o fôlego perdido em meio às gargalhadas. Nos emocionamos ao sentir a paixão e responsabilidade com que Elias Zakaib encara a profissão, demonstradas através das descrições hilárias de casos que desvendam muito do mundo que se esconde por trás da tarefa de cuidar das mamães e nenês que não param de pipocar por aí.É uma pena que você, leitor do Caricato, não pôde estar conosco, conferindo tudo de perto. Mas, para matar sua curiosidade, separamos os melhores momentos do bate-papo, que você confere a seguir.

    Donato - O assunto abordado nesta quarta edição do Caricato é o tempo. E pra gente o tempo começa a contar, a valer em nossas vidas, a partir do momento que nascemos. Por isso estamos conversando com vocês dois, que podem ter sido os responsáveis pelo nascimento de quase metade das crianças aí da cidade, não é?

    Elias - É! O Dudu mais do que eu, né Dudu?

    Dudu - Sou mais antigo. Mas você fez muitos partos.

    Elias – Sim, mas você fez muitos mais! Deve ter feito uns 20 mil partos. Ele atendia toda a Gota (Maternidade Gota de Leite), todo o pessoal do SUS, o INPS antigo. Foram milhares.

    Dudu – Eu cheguei aqui em maio de 57. E você Elias?

    Elias - Em 22 de março de 68, na década de 60.

    Roberto – Vocês conseguem calcular o número de partos feitos?

    Elias - Eu fiquei um tempo na Beneficência e tínhamos uns 300 pré-natais e mais outros 300 no INPS, mensais. Agora o Dudu tinha a Santa Casa, a Gota… Começava a operar de manhã e ia até a noite.

    Dudu – Antigamente, aqui em Araraquara, quem fazia os partos eram as parteiras. Tinha a Rosa Espinguete, que era uma parteira diplomada, Dona Amélia Trindade, Corina e Maria José, que trabalhavam mais na Santa Casa. Na Beneficência, quem fazia mais eram as irmãs que estavam lá.

    Elias – Irmã Teresa, irmã Clara.

    Dudu – A Beneficência passou esse tempo muito mal, era um hospital ruim pra cacete, só tinha aquela parte da José Bonifácio. Aí esse camarada (apontando para Elias) chegou e pegou a peito. Encontrou o Tedde Neto, que estava lá como presidente, e construíram aquele pavilhão voltado pra rua 4.

    Elias – Mas fui eu, Osmar Chatô e irmã Clara. Construímos o centro obstétrico.

    Dudu - Em 57, Araraquara tinha 40 mil habitantes e 40 médicos e eles dominavam a praça. Havia a efervecência do fenômeno que a gente chamou de “Castelucci”. O Castelucci deprimia a gente. Eu passava com minha maletinha pelo Jardim da Independência e lá tinha fila de oito, dez carros esperando ele voltar da rua pra atender outro paciente e eu não tinha nenhum. O Sirtz também tinha uma clínica grande e ficava contando alto: “vinte e cinco!” e entrava mais um cliente pro Castelucci, enquanto a gente não tinha nenhum.

    Roberto - Qual é o número máximo de partos que vocês já fizeram em um dia?

    Dudu – Antigamente eu tinha uma média de 120 partos por mês.

    Elias – Eu cheguei a fazer 80, na época que atendia pelo SUS.

    Dudu - Naquela ocasião, você tinha quatro categorias de pacientes. O que dominava era o paciente de enfermaria, o chamado indigente. Depois desse, tinha um melhorzinho de vida, que dividia o quarto, o chamado meia-pensão. O que tinha dinheiro mesmo ficava com o quarto sozinho. E tinha o pessoal do departamento.

    Elias – A Beneficência, quando eu cheguei, não fazia nem 12 partos por mês, mas depois chegou a fazer 300. Trouxemos o primeiro ultrassom pra cá em 68, mamografia, o parto sem dor, fomos pioneiros nisso.

    Roberto – Tem uma cena clássica, que a gente vê em filmes, em que a mulher vai entrar em trabalho de parto e pedem pra trazer um balde d’água fervendo e toalhas limpas…

    Dudu – Isso é besteira. Olha, tem uma história engraçada. A Dona Corina fazia sempre a recomendação pra comprar uma galinha e fazer o famoso “caldo”, assim que começassem as contrações. Certo dia eu tô lá na Santa Casa e aparece um amigo desesperado dizendo que Dona Corina tava na casa dele havia dois dias, ele já tinha matado metade do galinheiro e nada da criança nascer. Ele não aguentava mais matar as galinhas. É cada lance que você vive…

    Elias – Eu já fiz partos dentro do banheiro, no táxi… Um monte.

    Roberto – Tem alguém que vocês se arrependeram de ter trazido ao mundo?

    Dudu – Não, não dá pra se arrepender. É um ato tão fantástico e somos dotados desse privilégio…

    Elias – Atualmente nós estamos fazendo partos das crianças que nós fizemos nascer. Eu tenho muitos casos, inclusive, cuja mãe e pai eu fiz nascer…

    Dudu – Eu já tenho bisnetos.Todo lugar onde você vai, encontra três, quatro, cinco que nasceram com você.

    Elias – Outro dia fui procurar uma costureira e bati em casa errada e a mulher que atendeu disse: “doutor, é o senhor! Espera aí que eu vou te mostrar meu netinho”. Isso é fantástico. Eu fico muito chateado, por exemplo, quando vejo crianças que eu fiz nascer, drogadas por aí. Me deprime. Você cria uma ligação com elas.

    Roberto – Qual é a maior quantidade de crianças que vocês já tiraram de uma só barriga?

    Elias – Três. Trigêmeos. Veio uma paciente de Boa Esperança com o diagnóstico de gêmeos e fui fazer um ultrassom. Fiz cabeça, coluna e quando subi o ultrassom notei que tinha outra cabeça lá. Quando contei à paciente, ela começou a chorar desesperada e disse que não tinha roupa nem pra vestir um, quanto mais três. Fizemos uma campanha na Beneficência e você precisava ver o que choveu de roupa. É cada coisa! Ah! Mudando de assunto, tem uma coisa interessante. O negócio da lua. A mudança da lua. Não sei qual é o motivo, mas você fazia 3, 4, 5, 10 partos em dois ou três dias e depois ficava quatro dias sem fazer nenhum, não sei por quê. O Dudu deve ter notado isso.

    Dudu – Tem outra coisa também. Antes do anticoncepcional, o mês em que você fazia mais partos era novembro, porque pegava a turma do carnaval. Novembro era terrível!

    Donato - Me diz uma coisa, como vocês conseguem enxergar alguma coisa no ultrassom? Só tem borrão…

    Elias – O que é isso! É tranquilo! E olha que hoje ainda temos o 3D (três dimensões). Mas o 3D serve para visualizar a carinha, não acrescenta muito, com o 2D dá pra ver perfeitamente. Mas o mais importante hoje no ultrassom é o Doppler, colorido. Com o Doppler você vê a vascularização, a placenta, o cordão umbilical, as artérias ulterianas.

    Dudu – Esse Doppler é realmente incrível, pois com ele você faz o perfil biofísico do bebê. Dá pra avaliar e saber se ele vai ser retardado mental, se tem má formação, é um mundo de coisas.

    Roberto – Vocês fizeram partos de pessoas que todo mundo conhece aqui na cidade?

    Dudu – Na Câmara, que nasceu comigo, tem o Napeloso, a Juliana, o Carlos Nascimento, o Edmilson e o Turquinho. Isso dentro da Câmara, imagina fora o que não tem…

    Donato – Tem muito marido que tem ciúmes do ginecologista da esposa?

    Dudu – Tinha um camarada lá na rua 11, que era mais largo que essa porta e a mulher dele consultava comigo. Ele cismou que tinha três médicos que andavam com a mulher dele: Derico Primiano, o João Cumprido e eu. O cara começou a rodear a casa dos três, armado. Não tem jeito, só do cara soprar, ele me derrubava no chão. Ele acabou internado…

    Elias - O meu tio, com quem comecei a trabalhar, me aconselhou a nunca trancar as portas do consultório com chave. Todas as portas ficam abertas e, quando eu toco a minha campainha, de todos os cantos dá pra se ouvir. Eu só examino a paciente com a enfermeira do lado e não é por causa dela, mas por minha causa. Ninguém pode falar, eu com 37 anos de profissão, ou o Dudu com 47 anos, que nós mexemos com alguma paciente no consultório.

    Dudu – A enfermeira põe a paciente em posição, troca a roupa dela e você só examina e vai embora…

    Elias - A enfermeira cobre a paciente e fica só a vulva pra fora, nem as pernas nada, só a vulva. Eu já examinei muita mulher bonita e tal e a turma fala: “olha o Zakaib”, mas eu falo que não tem nada disso…

    Dudu – Com os maridos em geral não tem problema, porque eles ficam na sala…

    Elias – Sim, eu convido sempre o marido. Dia desses mesmo teve um caso de esterilidade em que a paciente disse: “meu marido nunca entrou” e eu falei: “vai entrar”. Chamei, ele entrou na sala de exames, expliquei tudo direitinho, aproveitei pra fazer o ultrassom transvaginal, mostrei o útero, os ovários… Ele falou: “pô, que legal, não sabia que dava pra fazer tudo isso”. Se ele fica lá fora, não sabe de nada do que está acontecendo, então acho legal chamar…

    Dudu – A maioria dos ultrassons que a gente faz o marido acompanha tudo, eles gravam em vídeo.

    Elias - Lembrei de uma história que tenho que contar porque é muito boa… Eu estou cortando a barriga e o cara está filmando, aí começa a sair sangue e o cara filmando… Eu pensei: “vai cair”. Ele continua filmando mas, de repente, eu olho e o cara está abaixado, branco. Aí puseram ele pra sentar mas, como ele ia desmaiar, eu pedi pra pôr na maca. Puseram ele no corredor deitado e o Zé Américo Sartori sabia que era o pai, mas viu a cena, chegou para o cara e perguntou: “é o senhor que vai operar da hemorróida?”. O cara falou: “não, não, eu não…”, desesperado.

    Roberto – O cara acordou na hora… E tem casos emocionantes?

    Dudu - Não é bem emocionante, mas uma vez eu estava na Santa Casa e já tinha feito um parto, estava cansado, indo embora pra casa, quando toca o telefone e é fulano de tal, pessoa conhecidíssima. “A minha mulher está achando que o nenê está meio paradão”. Quando ela chegou, eu examinei e vi que o nenê estava com o coraçãozinho parando. Aí foi zummp, sobe todo mundo. Já peguei a equipe lá em cima e tirei o nenê, que saiu numa draga danada, mas sobreviveu, recuperou bem. Se eu falo pra ela: “toma um remédio e deixa pra amanhã”, já viu…

    Elias – Mas essa foi a briga que eu tive com o Arlindo. A mulher veio de Matão, chegou no consultório e o nenê estava nessa situação, uma batida de coração aqui, outra lá e outra acolá. Falei pro marido: “leva já pra Beneficência”. Cheguei na Beneficência e o portão fechado. “O senhor tem que pagar o estacionamento”. Eu falei: “vocês vão pra puta que o pariu” logo de cara. “Abre esse portão senão eu arrebento”. Veio o seu Nelson falando: “o senhor tem que pagar o estacionamento agora, ordem do seu Arlindo”. Eu falei: “você manda ele pra puta que o pariu, abre essa bosta aí senão eu arrebento”. Aí então falaram: “não, tem que pagar agora”, mas no final acabaram abrindo, eu entrei e fiz a cesária e o nenê saiu. Eu saí dali e já liguei pro Polezze direto…

    Dudu – O Zakaib chegou na cidade e deu uma contribuição muito grande, mas a situação já era mais ou menos estável. Quando eu cheguei aqui tinha uns negócios esquisitos. Tinha médico que operava fimose, apendicite, fazia hérnia, fazia tudo, era o chamado polaco. O polaco era o médico de tudo e, por sinal, não fazia bem nada. Esse cara aqui (apontando para Elias) também trouxe aquele aparelhinho de circuncisão…

    Elias – Todos os meus filhos fizeram e eu fazia aqui no começo. Eu cobrava 80 o parto e mais 20 pra fazer a circuncisão.

    Dudu – Mas esse médico polaco estava operando a fimose de um moleque de uns oito, dez anos. Então pegou a pele, virou para o Gentil e disse: “doutor, tem um ilustre pediatra da cidade que anda dizendo por aí que eu não sei operar fimose” e zupt, tirou um bife da cabeça do pau do moleque. E o Gentil, que era um gozador, virou e disse “doutor, o pediatra tinha razão”. Tem um lance interessantíssimo de outro pediatra da cidade. Uma mulher chegou no consultório dele com uma criança, mas a criança estava num bagaço, muito ruim, desidratada, anêmica, barriguinha estufadinha, ruim pra cacete. Ele olhou, examinou, aí virou pra mulher e disse “dona, eu acho melhor a senhora fazer um outro porque esse aqui não tem conserto não”.

    Kiko – Esse nome polaco não era uma alusão às polacas, mulheres da zona lá em São Paulo?

    Dudu – Não era, mas essas mulheres polacas que você fala, principalmente lá no sul, se prostituíam facilmente. Então, uma infinidade dessas crianças que nasceram lá no Paraná, em Santa Catarina, estão aqui em Araraquara, porque o pessoal adotou lá, sem precisar passar por juiz, fórum, nada. Mas é engraçado, uma vez eu estava na Gota fazendo ambulatório e entrou uma senhora lá, posuda, morenona, primeira consulta dela. Então eu olhei na ficha e estava escrito lá: Maria do Carmo Ciquera, com C. Eu olhei pra ela e perguntei: “o nome da senhora é assim mesmo? Maria do Carmo Ciquera?” Ela virou e falou: “é com C do sapo, não é com esse C não”.

    Roberto – Tem mulher que é arredia, envergonhada demais nas consultas?

    Dudu – O Elias deve ter visto isso. Tinha velha que ia ao consultório com a calcinha cortada, deixando aparecer só o bichinho que come terra. Vocês sabem qual é o bichinho que come terra? O caboclo falou pro outro: “cumpadi, você conhece o bicho que come terra?” Você conhece Elias? O caboclo falou: “o bicho que come terra é esse (estende e junta as pontas dos polegares e dos indicadores das duas mãos). Já me comeu uma chácara, dois sítios e uma fazenda…

    Roberto – Então as senhoras cortavam a calcinha e deixavam só um buraco embaixo?

    Dudu – Eu falava pra enfermeira: “leva essa senhora pra lá porque ela precisa tirar a calcinha” e elas respondiam: “não doutor, eu já vim preparada…” Outra senhora chegava e falava: “doutor, eu trouxe a minha filha pro senhor examinar, coitadinha, ela troca umas cinco calcinhas por dia. Ela tem tanto corrimento que fura toda a calcinha dela…”.

    Elias – Uma vez uma menina de 16 anos chegou com uma dor na barriga, junto com a mãe. Quando eu coloquei a mão já vi que era nenê e falei: “corre para o hospital que vai nascer aqui”. A mulher falou: “o que foi doutor?” Eu falei: “parabéns, a senhora vai ser avó” e ela poft, caiu de costas…

    Dudu – Tinha um ginecologista, já com bastante nome na cidade, que era um cara de pau danado. Pra examinar a paciente, a enfermeira põe em posição e você introduz um aparelhinho na vagina, vai abrindo um parafusinho e escancara pra poder ver a cavidade, o cólon do útero, enfim. Ele foi lá, colocou o aparelho, examinou a coisa e falou: “está tudo bem, pode descer e se vestir”. Ela botou a calcinha e foi embora. Deu um tempo, ela voltou ao consultório e falou: “esqueci de perguntar para o senhor quando é que eu tenho que voltar pra tirar o aparelho que o senhor colocou”. Ele, muito cara de pau, perguntou pra enfermeira: “que hora ela consultou?” a enfermeira falou: “era uma e meia”. “Bom, já são três e pouco, então pode tirar que já está bom”.

    Roberto – É verdade que tem mulher que não percebe que está grávida até algumas semanas antes de nascer o nenê?

    Elias – Uma vez foi uma crente com o cabelo aqui embaixo, ela de birote, a mãe e a avó de birote, foram todas ao consultório. Examinei, coloquei o aparelhinho pra ela escutar e ela: “o que é isso?” Eu respondi: “é o coraçãozinho do nenê”. Aí a mãe e avó ficaram desesperadas: “você está grávida!”. A menina falou: “não estou, eu vou contar pro meu namorado e ele vem aqui bater no senhor”.

    Dudu – Tinha a filha de um casal de farmacêuticos de Nova Europa, que lecionava não sei onde em Araraquara, e uma tarde foram todos ao meu consultório. “Doutor, eu trouxe a minha filha porque ela passou a noite inteira com cólica de rim e não melhora de jeito nenhum”. Olhei pra moça e vi aquela puta máscara de gravidez, porque muda a pele, tudo… Coloquei o aparelho na barriga dela e percebi que ela já estava em trabalho de parto. Chamei a enfermeira e falei: “me dá a luva e tira a calcinha dela”. O nenê já estava coroando, que é quando você olha e já vê o cabelinho. Eu falei: “não se mexa, chama a maca”. Aí a mulher: “o que a minha filha está tendo, doutor?” Falei: “vai nascer o nenê”. A mãe olhou pra filha e disse: “foi o Alfredo não foi?” (com voz de choro). A mocinha olhou de volta e falou: “foi”. Ela confessou na minha frente…

    Donato – E a gravidez psicológica? É verdade que a mulher nem menstrua?

    Elias – Não menstrua, o hipotálamo e a hipófase bloqueiam e ela não menstrua. É psicológico mesmo, a chamada falsa gravidez. Mas não existem muitos casos, graças a Deus…

    Dudu – Uma mulher fazia pré-natal com um colega que, de repente, resolveu que não ia mais fazer o parto e encaminhou a paciente pra mim. Ela entrou no consultório, me contou pra quando era o nenê, falou o histórico todo. Falei: “deita lá” e examinei a mulher. Aí virei e perguntei: “o outro médico não examinava a senhora?” Ela falou: “não, nunca examinou”. Ela achava que o bebê estava pra nascer e como é que eu ia falar que não tinha nenê nenhum? É complicado…

    Elias - Ela pode cometer suicídio, dá alteração mental…

    Kiko - E em relação aos casos de depressão pós-parto?

    Elias - Vocês se lembram de uma moça que jogou o nenê no lago do Pinheirinho? Acho que foi em 84, 85 e se chamava Ângela. Até foi o Marcão quem a defendeu e o juiz de direito a empregou como doméstica. Fui eu que fiz o parto dessa moça, ela teve uma depressão pós-parto violenta… Ela ouviu vozes que a mandaram jogar o nenê no lago do Pinheirinho, ela foi lá, jogou e o nenê morreu. Depois eu perguntei: “o que acontecia na sua gravidez?” O marido batia nela, judiava, queria ter relação toda hora. Uma vez, no meio de um temporal, ele trancou ela pra fora de casa. Um filho da puta muito grande.

    Dudu – Mesmo quando trata bem pode acontecer, imagina assim…

    Elias – Tinha uma paciente que morava pra cima do Jardim Martinez e que gostava de comer terra. Essa perversão do paladar se chama pica. A mulher come tijolo, reboco, arroz cru, café cru…

    Lucas - Então a mulher pode ter pica…

    Elias – É, o termo é este.

    Dudu - Tinha uma senhora que foi consultar na Gota: “Doutor, estou com umas hemorróidas e tal… Na histórico dela, ela tinha tido 14 filhos e o caçula já tinha 16 anos. Eu falei: “como a senhora faz pra evitar filhos? Faz marcha a ré? Tira na hora de ejacular?” ela falou: “depois desse último, a gente só faz no rabo…” . É verdade verdadeira, 16 anos tomando no rabo pra não ficar grávida…

    Dudu – Tem um colega nosso que é de Osvaldo Cruz e Osvaldo Cruz, se tiver 20 mil habitantes, 19.800 são japoneses. Esse meu colega tinha um consultório lá, bem frequentado e tal. Entrou uma mulher e falou: “doutor, eu tenho hemorroida” e ele a colocou na posição maometana pra examinar, viu uma hemorroida do tamanho de um repolho, assim, pra fora. Aquilo estava sangrando, babando, aquela coisa toda e ele ficou espantado: “por que a senhora não opera isso aí?” Ela disse: “meu marido não deixa eu operar”. Aí ele pediu pra enfermeira pra que chamasse o marido, era o primeiro da fila que estava sentado. O japonês entrou e ficou olhando. “O senhor está vendo isso?”. O japonês olhou e falou: “feio, né?”. “Por que o senhor não deixa ela operar?”. Aí o japonês vira e fala: “eu não conheço ela”. A enfermeira tinha chamado outro cara…

    Roberto – Tem mulheres que vão ao consultório mal intencionadas?

    Elias – Sim. Mas o problema não são as mulheres, são os maridos… O que tem de marido filho da puta vocês não acreditam,  que maltratam, que espezinham, que judiam… Tem maridos que são homossexuais latentes. Tem casos em que o cara manda a mulher sair, transar, voltar pra casa, contar pra ele como foi e aí sim, ele tem relação com ela. Três casos. Tem uma mulher que teve um trauma quando o marido a fez transar com um cachorro… Ela foi ao ginecologista depois. Ela fala: “doutor, nas férias eu consigo tudo do meu marido, joias, dinheiro, roupa… Mas tenho que sair com uns carinhas pra ele ficar olhando e sabendo do que acontece”. Uma vez ele ficou atrás da porta e fez ela ficar na cama, se masturbando, com a janela aberta para um grupo de rapazes ficar olhando pra ela. Olha o desespero…

    Roberto – Se o marido trata mal e o médico a trata um pouquinho melhor…

    Elias – Não é só o médico, é qualquer um…Teve uma moça, bonita, fala delicadinha, me disse que tem um cara na farmácia dando em cima dela. E o marido tratando mal…

    Roberto - Elas chegam e contam?

    Elias – Elas contam… Eu perguntei: “você não vai ter filho?”. “Não dá pra ter filho com meu marido…”. Tem outro caso super interessante, o marido super ciumento, falou: “casou, vai sair do trabalho” e comprou um computador pra ela. Ela encontrou um namorado pela internet em Portugal e falou que queria conhecer o cara. E foi pra Portugal… Eu faço umas chantagens emocionais pra ver se ela desiste, né? Eu falo: “você conhece o cara? E se ele for feio pra caramba, e se tiver mau hálito? Como você vai ficar com ele?”. Tem uma que sai daqui, vai pra São Paulo, pega a ponte aérea pra transar com o cara no Rio de Janeiro, pega novamente a ponte aérea e à noite está em casa, de volta.

    Roberto – O ginecologista é meio psicólogo também?

    Elias – Hoje a ginecologia é psicossomática…

    Roberto - Então é normal essa conversa?

    Elias – É normal, eu tenho um item no meu interrogatório que é quase de faculdade, assim como o Dudu tem os seus também. Eu pergunto: “a senhora sente prazer nas relações?”. Esse é o “start” da coisa… Aí ela desembesta a falar e conta tudo… Trinta por cento das mulheres não sentem prazer nas relações…

    Dudu – É que a mulher quando não tem orgasmo se desinteressa, foge…

    Roberto - Então, na maioria dos casos, os caras não sabem fazer direito?

    Elias – Às vezes não é saber fazer direito, a relação começa quando acorda de manhã…

    Roberto - O tratamento dispensado à mulher…

    Elias – Ontem eu não fui trabalhar de manhã e estava assistindo ao programa da Olga Bongiovani. Estavam lá o Cesar e o Paulinho. O Cesar falou: “tem dia que o homem acorda mal humorado, dá patada aqui e dá patada ali. Cadê minha roupa? Está mal passada, cadê o botão que está faltando? O arroz está duro…” A relação de marido e mulher começa de manhã, quando acorda, o jeito que o cara trata a mulher… Porque, se ele a trata ssim, chega a noite e a coisa não vai…

    Lucas – Vocês falaram bastante do relacionamento entre marido e mulher, mulher e médico, médico e marido… Como é o relacionamento entre seus colegas de profissão?

    Dudu – Ah! Tem uns casos que eu queria contar, que ilustram bem isso. Nós tínhamos uma grande amizade com o Dr. Otto Amaral, anestesista. Ele era como um irmão da gente. Eu estava desocupado no consultório e, como todos sabemos, a mente desocupada é a melhor amiga do malígno… Bom, eu estava desocupado no consultório e pedi para a minha atendente ligar para todos os médicos da cidade, em nome da Casa do Médico, convidando todos para uma recepção na casa do Otto. Bom, ela chamou todo mundo pra essa tal recepção e o Otto, coitado, nem sonhava com isso. Só que o Dr. Zé Barbieri Neto ligou pro Otto pra confirmar a recepção de aniversário. Nessa altura o Luis Tsua, também anestesista, ficou sabendo da tal festa e foram, ele e o Otto, desesperados, comprar tudo que é tipo de salgadinhos: pastel, empadinha, coxinha, salaminho, mortadela… até que estivesse suprida a demanda para a festa. Foi incrível, porque todos foram ao aniversário do Otto. E foi uma grande festa! No final, todos já sabiam que tinha sido eu o responsável pela história e me deram um pau… Uma brincadeira!

    Lucas - Não era pra menos.

    Dudu - Tem outra história ótima: eu já estava famoso no estado de São Paulo como “O Médico que Dava Tiros nos Representantes de Laboratórios”. A turma de veteranos já sabia que eu tinha um “revolvinho” desses de festim. Quando eles tinham algum novato trabalhando, eles “o entregavam” para mim para o “batismo”. O novo representante que vinha falar comigo caprichava, dizendo que o produto era isso, que era aquilo. Chegava uma hora em que eu cismava, levantava meio bravo, abria a gaveta e dizia: “o senhor tá querendo induzir meu raciocínio a respeito deste remédio? Tá dizendo que ele cura tudo?”. “Não doutor, não é isso!”. “Eu não gosto dessas brincadeiras”. Aí eu sacava o revólver e bum, dava um belo dum tiro. O Muriçoca, cara muito conhecido, quando novato, foi fazer sua primeira visita no meu consultório. Tadinho, eu fiz toda essa cena e o Muriçoca queria pular da janela, deu uma peitada na minha estante… Ele desmaiou. Foi um ufa pra ressuscitar o Muriçoca!

    Lucas – Uma última pergunta: Quem de vocês foi o responsável pelo nascimento do ano novo?

    Elias - Foi o Dudu. Ele fez o parto e eu auxiliei…

    publicado originalmente em
    | O Caricato | número 4 | janeiro/2004 |

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