• mala
  • twitterocaricato
  • passaport
  • Bilhetes comentados

  • À Minha Namorada

     

    mulher

                                                                                                      ilustração: Rita Leite

    por Frederico Monteiro

     

    Antes que repouses novamente tua mão em meu peito nu,

    lembra-te que sou feito não apenas de carne fria e umidade,

    sou também um bocado de calafrio, de desejo, de saudade,

    de pensamentos imperfeitos, de desejo de ser dois.

     

    Lembra-te que sujo pratos, que fico só, que quero ser só,

    que rio à toa, que desejo mal a alguém, que ando descalço,

    que às vezes valho muito pouco, outras muito, que sou eu,

    que sou outro, que brinco de ser nada, que durmo de repente.

     

    Lembra-te que já te desejei mais e menos, sempre e nunca,

    que quis sofrer, que sorri à uma menina desavergonhada,

    que quis como um louco um sorvete enquanto querias colo,

    que magoei-te demais e, debaixo de lágrimas, implorei o perdão.

     

    Lembra-te da casa que sonhamos, do pouco dinheiro,

    das velhas chinelas povoando a sala, do grilo tirando o sono,

    do carro enguiçado, da faca amolada, do disco riscado,

    da roupa estendida, da telha voando querendo cair, assim como eu.

     

    Lembra-te que somos, um a um, humanos às vezes,

    outras insanos, fugidos, queridos, loucos de dor,

    perfeitos, estúpidos, heróis, vilões, brinquedos ou não,

    que somos então, tudo o que queremos e podemos ser.

     

    Lembra-te, enfim, da voz contida, do soluço faceiro,

    das mãos apertadas, dos olhos molhados, do joelho cansado,

    lembra-te do prêmio que ganhaste, do susto que levaste,

    lembra-te de mim, pois, incansavelmente, dia a dia, eu me lembro de ti.

     

     publicado originalmente em
    | O Caricato | número 2 | agosto/2003 |

    Mais Poesias

    « | Inicio | »

    

    Comentários