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  • A verdadeira Família Flintstone

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    Os Flintstones moram em Araraquara! Marcelo Adorna Fernandes (ou Fred Flintstone, como é chamado pelos amigos), não sai de uma pedreira na periferia da cidade, mora numa casa rodeada por pedras com pegadas registradas há milhões de anos e é completamente apaixonado pelos Dinos. Fred estuda desde sempre o assunto que habita o imaginário de crianças e adultos do mundo todo e está mais perto de nós do que muitos acreditam. Seu sonho é transformar as mais de 400 lajes de arenito coletadas na pedreira São Bento em alvo de exposição permanente em um museu que fizesse a população conhecer de perto a história que passou por debaixo de seus pés há tanto tempo. Suas últimas descobertas, uma pedra com uma pegada de 35 centímetros de comprimento por 30 de largura e uma outra com um vestígio do xixi de um dinossauro, mostram o que estamos perdendo sem um museu de paleontologia na cidade.

    Marcelo Adorna Fernandes e Luciana Bueno dos Reis Fernandes, sua esposa, receberam com muito humor a equipe do Caricato na casa deles, onde, entre um gole e outro de cactus-cola, viajamos milhares de anos no tempo e chegamos à pré-história de Araraquara. E agora chegou a sua vez de embarcar nessa aventura, contada nas próximas páginas.

    Entrevista concedida a José Angelo Santilli, Roberto Schiavon e Lucas Lima 

     

    Flintstones 

     

     

    Santilli - Como você se interessou pela Paleontologia? Você é de Araraquara mesmo?

    Marcelo Adorna Fernandes – Sou minhoca. Sou daqui mesmo de Araraquara, tanto que o quintal da gente sempre foi calçado com o arenito onde estão as pegadinhas dos bichos. Mas até então não sabia que existia nada disso em Araraquara. Desde garoto eu gostava de fazer desenhos de dinossauros na escola.

    Santilli - Onde você estudou?

    Marcelo – Estudei no Antônio J. de Carvalho e depois no EEBA, sempre em escola pública, e sempre gostei de ciências. Depois que terminei no EEBA fui fazer Biologia na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Mas antes de estudar na Federal de São Carlos tive contato com algumas revistas, como a Ciência Hoje, onde foi publicada uma história do Dr. Giuseppe Leonardi, um paleontólogo italiano que morou no Brasil. Ele ficou mais ou menos dez anos em Londrina e numa situação atípica, também como padre, viajando aqui pelo interior de São Paulo, em 1975/76, sentiu forte dor de dente e pediu para o motorista parar em algum lugar para tratar dos dentes. O motorista o deixou em Araraquara, pois sabia que aqui existia uma Faculdade de Odontologia. Ele foi a pé até a faculdade, caminhando pelas calçadas de Araraquara e começou a identificar vários vestígios (pegadinhas) nas calçadas de animais pré-históricos. Um trabalho sobre o tema foi publicado numa revista em 1983, quando eu estava indo para o terceiro colegial. Comprei a revista e comecei a adorar esse tipo de coisa. Desde então não parei mais. Sempre ia de bicicleta até a pedreira para dar uma olhada no material que estava sendo retirado de lá, mas nunca dava para trazer nada de bicicleta. Quando estava fazendo a faculdade de Biologia, em São Carlos, pude ter mais acesso dentro da disciplina de Paleontologia e fazíamos excursões com turmas da faculdade e podíamos coletar material. Assim, tive um contato mais científico com o tema, que até então era um hobby. Isso há cerca de 7 ou 8 anos. Após concluir o curso, com a minha instalação definitiva em Araraquara, pude estar visitando a pedreira com mais frequência, indo de carro até lá e podendo coletar material. Esse material que está guardado aqui na minha casa tem mais ou menos 6 anos de coleta. Somente há 3 anos que fiz a pós-graduação em Paleontologia. Sou biólogo com mestrado em Ecologia. Agora o doutoramento é em Paleontologia, exatamente sobre as pegadas da cidade, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

    Santilli - Quando você fala da pedreira, se refere à Pedreira São Bento?

    Marcelo – Sim, é a Pedreira São Bento, localizada nas proximidades da antiga Estação do Ouro, a uns 15 quilômetros do centro da cidade. Todo o calçamento de Araraquara e região foi retirado dessa pedreira, não só da São Bento mas de outras que hoje em dia estão desativadas. A única em atividade em São Paulo, inclusive, para extrair lajes para calçamento, é a pedreira São Bento. Esse é um dos motivos pelo qual temos encontrado muita coisa nesta pedreira.

    Roberto – Tem muitas pegadas interessantes nas calçadas?

    Marcelo – Existe sim. O padre Giuseppe Leonardi, quando visitou Araraquara, conseguiu coletar mais de 4 toneladas de rocha das calçadas da cidade. Ele retirou esse material e levou para o DNPM e a CPRM, órgãos públicos federais de pesquisa, lá para Brasília, e mesmo para Londrina, onde ele lecionava numa faculdade. No Rio de Janeiro tem alguma coisa também. Só que parte desse material se perdeu, muita coisa não existe mais. O pessoal foi jogando fora, era entulho, é uma pedra muito difícil de lidar e foi se acumulando debaixo de escadas. Fui atrás deste material lá no Rio de Janeiro e, inclusive, não tem nem o tombamento na instituição. Está depositado lá provisoriamente até encontrar um espaço definitivo. E é o nosso caso aqui também, porque estamos guardando em casa, por não haver um espaço definitivo para expor e armazenar. Mas tem muita coisa nas calçadas que vale a pena ser retirado.

    Roberto – Você não sai de madrugada com um martelo para retirar esse material das calçadas?

    Marcelo – Até dá vontade. Temos uma que foi retirada da rua zero, mas tem que ter uma autorização. Conversamos com o proprietário e ele autorizou desde que colocássemos outra no lugar. Fomos numa tarde lá, junto com um pedreiro e alguns amigos, e retiramos uma linda pista de invertebrado que o Museu Nacional do Rio de Janeiro está de olho. Querem por toda lei isso lá, porque é única que viram assim tão bela.

     

    Retirada-das-calcadas

    ^Pedra sendo retirada de uma calçada de Araraquara^

     

    Lucas – Muita gente não sabe, mas tem um dinossauro em casa?

    Marcelo – Tem um dinossauro no quintal, se bobear. Não que o bicho tenha andado no quintal dele, mas a pedra que está lá, o calçamento do quintal dele foi retirado da pedreira onde os animais andaram. Tem muita coisa exposta nas calçadas e dá para a gente fazer um passeio jurássico pela cidade. Inclusive é uma proposta nossa, da criação de um museu, de estar treinando monitores, garotada de escolas, para estar levando pessoas que queiram conhecer esse material, que queiram visitar a cidade, para fazer uma turnê pelas calçadas. A proposta é colocar um placa ao lado da pegada para identificar. Seria um ponto turístico a mais para a cidade. Em volta do Parque Infantil tem muita coisa interessante.

    Lucas - Poderia se falar que na rua tal, número tal, mora um dinossauro?

    Marcelo – Mora um dinossauro… Talvez viva ainda lá e se bater na porta, você vai encontrar com ele… (risos)

    Roberto – Isso tudo é muito pouco valorizado….

    Marcelo - É tão pouco valorizado isso, que se o pessoal soubesse o valor que tem esse arenito não jogava fora. Porque muitas dessas calçadas são substituídas, quando a raiz de uma árvore levanta uma beiradinha, já se cimenta por cima e perde-se totalmente esse material. Outras vezes é retirado e jogado fora numa caçamba como entulho e colocado cimento no lugar. Então, a gente perde totalmente esse material, tanto como entulho quanto jogado cimento em cima. O interessante seria o pessoal ter consciência do quanto esse material é importante em termos científicos e turístico para a cidade e estar ligando para o Museu Voluntários da Pátria, avisando quando da troca da calçada, para que seja feita uma verificação do material antes. Seria interessante as pessoas ligarem. Temos procurado material nas caçambas. O cômico disso é a gente cavocando dentro da caçamba enquanto o sujeito está lá tirando as lajes da calçada. Coisa de louco né?

    Santilli – Para o morador seria até um privilégio ter uma pegada na calçada da casa dele…

    Marcelo – Isso. Se for retirar um material, identificamos no museu como sendo retirada da frente da casa de determinado morador, constando o nome dele como doador no museu. E é um material caro, pois é uma pedreira só que extrai esse arenito para calçamento.

    Santilli – Esse material reunido aqui na sua casa é uma mini pedreira….

    Marcelo – Se bobear tem mais lajes para calçamento aqui do que na própria pedreira (risos). Tem umas 400 lajes de arenito mais ou menos, todas elas com vestígios fósseis. Interessante comentar que, nessa categoria da Paleontologia, a gente trata como icnofóssil. Icno significa vestígio, ou seja, icnofóssil significa vestígio da presença do animal. Não necessariamente o corpo, osso ou dente (fóssil corporal), mas sim vestígio da presença dele. É uma área da Paleontologia. Inclusive neste mês de abril, eu e minha esposa iremos apresentar num congresso internacional, o primeiro “xixi” de dinossauro do mundo. Já falamos desse vestígio fóssil da presença de um dinossauro que poderia urinar no deserto.

    Santilli – Um dinossauro urinar não é comum?

    Marcelo – Nunca foi encontrado. Poderia até ser comum, mas nunca foi encontrado um vestígio.

    Santilli - Quer dizer que existiu um dinossauro mijão?

    Marcelo – É… No caso, seria um urólito, para não se falar um mijólito, que ficaria estranho. Urólito seria a categoria científica para este tipo de estrutura.

    Santilli – Com esse vestígio encontrado, dá para saber se esse dinossauro mijava muito?

    Marcelo – Para fazer uma estrutura daquela, pelo menos uns dois litros de líquido caiu naquela areia.

     

    Urolito-xixi

    ^Vestígios de um mijão^

    O xixi fossilizado de um dinossauro, o primeiro urólito do mundo, foi encontrado na pedreira São Bento. O responsável por tal assinatura teria de 2 a 3 metros de altura. Por certo, o mijão nem sequer imaginava que entraria para a História de forma tão peculiar…

     

    Lucas - E quem foi que disse que eles podiam vir aqui na pedreira fazer xixi?

    Marcelo – Tem que marcar território né filho? Levantar a perninha em algum lugar… (risos). Só existem duas evidências, uma delas mal preservada. O avestruz é uma das únicas aves vivas atualmente que urina, só que é um sistema diferente dos mamíferos, ela não tem uma bexiga propriamente dita, mas tem uma estrutura interna que armazena o líquido. Dependendo do ambiente, se tiver muito árido o clima, ela segura, armazena por mais tempo, para aproveitar melhor o líquido, ir reabsorvendo. Deveria ser uma estrutura que provavelmente um dinossauro do deserto também tivesse. Era um bicho que fazia “xixi”. Só não tinha poste para ele levantar a perninha no meio daquela areia toda.

    Santilli – Aqui na sua casa você tem outros vestígios preciosos, como de besouro, escorpião. Naquela época, eles também estavam caminhando por aqui?

    Marcelo – Sim, estavam caminhando por aqui. Para a gente entender o que é um fóssil: esses fragmentos ósseos, dentes, cascas de ovos, precisam ter a água associada, porque são os sais minerais que infiltram nesses ossos, nessa porosidade, e ajudam a mineralizar e preservar. No caso do Brasil, nesse período jurássico, era muito árido o clima e criou-se um imenso deserto, o maior deserto que existiu na história do planeta Terra é isso aqui que a gente está pisando, o arenito que a gente usa como calçamento, inclusive. É o mesmo arenito onde está preservada a água do aquífero Guarani. Além da importância científica, há a relevância ambiental. Existem três períodos nessa época na qual viveram os dinossauros: Triássico, Jurássico e Cretáceo. O Triássico é muito antigo e existem rochas desse período ocorrendo lá em Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Seriam mais ou menos 230 milhões de anos. No Jurássico, como é um período muito árido, muito seco, uma das poucas rochas que se preservaram são os arenitos, provenientes de acúmulo de areia de deserto mesmo, que corresponde a mais ou menos 150 milhões de anos. E o Cretáceo, que é um período um pouco mais recente, que corresponde entre 80 e 65 milhões de anos atrás, quando existiram aqueles grandes dinossauros do Brasil, como há pouco tempo foi descoberto na Amazônia um grande dinossauro; são os grandes dinossauros herbívoros quadrúpedes. Na região de Monte Alto (SP), por exemplo, temos ossos desses animais do Cretáceo que viveram ali. Aqui em Araraquara, temos vestígios do Jurássico, que foi um período muito árido no Brasil inteiro e, que, portando, não temos ossos evidenciando a presença desses animais. A única evidência da presença de dinossauros, de mamíferos, no período Jurássico no Brasil são as pegadas, que estão aqui em Araraquara. A única evidência de dinossauros bípedes, nas regiões sul e sudeste, no caso de herbívoros de grande porte, como a descoberta recente de uma grande pegada de um dinossauro herbívoro e bípede ornitópoda (com pés de ave), também é daqui de Araraquara. É a primeira e única evidência desse bicho no Brasil, do final do Período Jurássico.

    Santilli - Essa evidência foi encontrada no início deste ano?

    Marcelo – Sim, em fevereiro deste ano, um pouco antes do carnaval. Isso é um pouco da história geológica do País. Dos três períodos em que viveram os dinossauros, o intermediário, que é o Jurássico, é aqui na nossa região de Araraquara, onde houve acúmulo de areia. A curiosidade é que essa areia que se acumulou formou um enorme deserto, na época em que os continentes americano e sul africano estavam próximos, e quando se separaram no final do Jurássico e início do Cretáceo, há mais de 100 milhões de anos, o magma que estava debaixo da crosta veio à superfície e cobriu todo o deserto e queimou tudo que tinha por aqui. Se tinha algum dinossauro vivo, virou carvão. E esse basalto que recobriu tudo ajudou a preservar essas dunas fósseis (pré-históricas) da pedreira São Bento. Só que aqui em Araraquara esses arenitos ocorrem mais próximo da superfície e em outras regiões como Monte Alto, Marília e Presidente Prudente estão abaixo da superfície. E como nestas regiões, no centro-oeste do estado, a rocha de basalto é mais espessa, pesou mais e afundou, formando uma grande bacia, uma grande depressão, onde os rios infiltraram naquela área, em cima do basalto que já estava endurecido, criando pântanos e lagoas enormes onde os animais do período Cretáceo iam beber água. Ali acabavam morrendo e como tinha água se preservaram os ossos. É uma explicação do porquê em Araraquara não tem ossos de dinossauros e em Monte Alto tem. São períodos e épocas climáticas diferentes; aqui mais seco e lá mais úmido.

    Santilli - Aqui em Araraquara era um grande deserto e os dinossauros eram herbívoros. Que tipo de planta tinha nesse deserto? De que eles se alimentavam?

    Marcelo – É importante salientar o que encontramos de vestígios de animais nesse deserto. Encontramos pistas de larvas de besouros, que também estavam por debaixo da areia, formando trilhas sinuosas. Encontramos pistas de besouros do período Jurássico, que caminharam por cima da areia, deixando as formas das patinhas preservadas. Encontramos pistas de escorpiões, inclusive com rastros da cauda do animal na areia. E encontramos dois grupos de dinossauros e um grupo de mamíferos. No caso dos mamíferos, tínhamos aqui animais quadrúpedes, provavelmente fossem pequenos carnívoros comendo esses insetos, os escorpiões (que são aracnídeos) e besouros. Tínhamos os dinossauros carnívoros (parecidos com o Velociraptor- com três dedos e unhas pontiagudas), que deviam se alimentar desses pequenos mamíferos. E tínhamos um grupo de dinossauros herbívoros que, até fevereiro, acreditávamos que pertenciam a uma fauna anã de deserto. Mas a pegada que encontramos mostra que existiam animais bem maiores do que se acreditava até então. Esses herbívoros deveriam se alimentar de vegetação rasteira que deveria existir às margens de lagoas que se formavam entre as dunas de areias, como os atuais oásis. Por causa dessas lagoas, esses animais deixaram essas pegadas aqui na região. Não iriam atravessar o deserto à toa, deveriam estar em busca de água ou alguma outra fonte de alimento. Em São Carlos existe uma pedreira de arenito, de onde se extrai o petit pavê, só que não se encontram pegadas. Talvez aqui tivessem esses oásis próximos e na região de São Carlos e Analândia não.

    Santilli – Essa última pegada encontrada será apresentada em algum congresso científico?

    Marcelo - Teve um congresso agora em abril na Patagônia, Argentina, e apresentamos o vestígio do xixi de dinossauro, pois já tinhamos um trabalho escrito sobre ele. No caso dessa última pegada, de cerca de 35 centímetros, como é muito recente não deu tempo de produzir um trabalho para apresentar neste congresso. Talvez no próximo ano. Mas como é um material de tese, pretendo estar fazendo todo o levantamento, medições e descrições e estar encaixando na tese. Posterior à tese podemos fazer publicações.

    Santilli – Como era a reprodução dos dinossauros?

    Marcelo - Todo dinossauro colocava ovo. São encontrados ovos de diversos grupos de dinossauros, só que em Araraquara não temos este tipo de preservação, só pegadas mesmo. E os mamíferos, os mais primitivos, como é a ocorrência daqui, os dinossauros eram grandes e os mamíferos insignificantes. Se fossem grandes, virariam comida. Eram bichinhos de um palmo de altura no máximo, menor que um pequeno gato. Esses mamíferos deveriam colocar ovos também. O tamanho de um ovo de avestruz é usado para a comparação, por exemplo, com um ovo de um saurópode – aqueles dinossauros pescoçudos. Só que a diferença é que um avestruz chega a 2 metros e um saurópode chega a 20 metros de comprimento. Eram bichos enormes que nasciam de um ovo do tamanho de um ovo de avestruz. Eram ovos pequenos e em grande quantidade, parecido aos das tartarugas.

     

    A DESCOBERTA

     

    Ornithopoda-Grande

    DinoEsqueleto

    ^Desenhos de Marcelo Adorna Fernandes^

    Esta seria a aparência do pré-histórico herbívoro que andava por essas bandas há mais de 100 milhões de anos. Ele teria aproximadamente 4 metros de altura e se alimentava de vegetação rasteira. Até então acreditava-se que os dinossauros herbívoros dessa região pertencessem a uma fauna anã de deserto.

     

    Santilli - O avestruz é parente do dinossauro?

    Marcelo – Toda ave vivente hoje em dia descende de um grupo muito primitivo de ancestrais dessas aves. E esse grupo primitivo de ancestrais tem um parentesco muito próximo com um tipo de dinossauro parente do Velociraptor. Tem um grupo de dinossauros, chamado celurossauros, que tinham ossos com interior oco (mais leves), algumas escamas transformadas em penas. Isso foi identificado na China, a impressão de algumas peles e esqueletos de dinossauros que tinham penas saindo dos membros. Provavelmente, uma derivação de um tipo de dinossauro que evoluiu até as aves. Mamíferos e aves surgiram mais ou menos próximos na história geológica do planeta, na época dos dinossauros. Só que os mamíferos tiveram uma evolução à parte, sempre competindo com os dinossauros e as aves se originaram a partir de um grupo específico de dinossauros carnívoros, esses bípedes com pés parecidos com os das aves.

    Roberto – Marcelo, uma curiosidade. Como é o Brasil, com essa riqueza de vestígios, em relação a outros países?

    Marcelo – A diferença é que no Brasil não é tão explorado. Enquanto nos Estados Unidos, Ásia e norte da África, as áreas são muito exploradas em termos científicos, pois muitas universidades e centros de pesquisas fazem expedições em busca de fósseis – financiadas normalmente por norte-americanos e britânicos – no Brasil a gente tem que bancar com o dinheiro do nosso salário. A gente vai pondo gasolina no carro e quando o carro quebra, não vai.

    Roberto – Quer dizer que o Brasil tem tanto vestígio quanto essas outras regiões?

    Marcelo - Tem tanto quanto. Só que a exploração aqui é praticamente nula perto de outros países. Tem muita coisa enterrada para se descobrir. Para se ter uma ideia, o esqueleto mais completo do País, em termos de fóssil de dinossauro, não chega a 30% de um esqueleto de um animal. Nem crânio de dinossauro ainda foi encontrado no Brasil.

    Roberto – Como é a legislação sobre os achados de interesse da Paleontologia?

    Marcelo – A legislação atualmente em vigor é da época de Getúlio Vargas, de 1930, com emendas. Na realidade, a legislação vigora para sítios arqueológicos. A Arqueologia trata de artefatos e vestígios de civilizações humanas. E a Palentologia trata de vestígios da presença de organismos vivos, até o homem entra nisso, que é a Paleontologia Humana. Até a Constituição de 1942 não existia isso e foi feita uma emenda para tratar disso, de sítios paleontológicos. No caso então, todo material encontrado no Brasil é patrimônio da União, não pode ser vendido e nem explorado de qualquer maneira. Todo sítio paleontológico tem que ter alguém ligado à ciência, ou um órgão federal responsável. No caso da pedreira, o proprietário tem autorização para exploração mineral. Os fósseis (icnofósseis) teriam que ser destinados a instituições de pesquisa, como estamos fazendo.

    Santilli – Você adquire essas lajes na pedreira?

    Marcelo – Isso, adquiro como material bruto, só que no caso estou escolhendo aqueles que têm interesse científico. A legislação em vigor no país confere a incumbência de preservar esse material aos municípios, estados e a União, tanto no local de coleta, os sítios paleontológicos, quanto na exibição pública na região. Assim, seria incumbência, inclusive, de Araraquara, estar tratando com cuidado e exibindo esse material para a população. Só que essa legislação não é seguida e temos que mendigar para todo mundo para tentar construir um museu aqui na cidade para expor esse material ao público. Às vezes, pessoas que vêm aqui na minha casa e olham para esse material perguntam se vamos trocar o piso, trocar a calçada. Respondemos que estamos escolhendo as pedras com defeito. Muitas vezes entendem as pegadas como defeitos nas lajes. A criançada adora isso tudo. Quando fazemos exposição no Museu Voluntários da Pátria, para se ter uma ideia, em um mês de exposição dessas pegadas o museu teve mais de 3 mil visitantes.

    Roberto - O que está faltando para se construir um museu de paleontologia em Araraquara?

    Marcelo – Temos basicamente duas possibilidades. Uma via ONG Araraquara Viva, que é um projeto em conjunto com eles para captar recursos por meio da Lei Rouanet que concede isenção fiscal para o empresário. O projeto foi aprovado e o valor é de R$ 267 mil para adequação de um espaço no Hotel Fazenda Salto Grande, que se propôs a ceder um galpão que seria reformado e adequado com os recursos obtidos pela Lei Rouanet. Nesse local, o museu seria implantado por um período limitado (não seria eternamente) para iniciar as exposições e verificar qual seria a aceitação pública disso tudo. Essa é a primeira possibilidade.

    Santilli – Qual o prazo estabelecido no projeto aprovado pela Lei Rouanet?

    Marcelo – O projeto foi aprovado há 3 anos e estamos protelando dentro da Lei Rouanet a captação de recursos, pois temos que prorrogar esse prazo porque não conseguimos captar esses recursos ainda. Uma, porque não temos habilidade em captação de recursos, não somos especialistas nisso. Foi contatada uma especialista de Ribeirão Preto, mas é necessário um investimento inicial e não foi possível. O prazo já foi prorrogado e até outubro de 2004 temos que captar esse valor dentro da Lei Rouanet. E a segunda possibilidade seria dentro do poder público, seja federal ou municipal. Federal, no âmbito da CPRM – Companhia de Pesquisas em Recursos Minerais, que na pessoa do Marco Aurélio Carvalho (ex-coordenador municipal de Meio Ambiente de Araraquara) está tentando um espaço que armazenasse esse material inicialmente e pudesse ser construído dentro daquela área da CPRM em Araraquara, que é federal, um museu público. E a outra possibilidade, no âmbito municipal, seria a prefeitura estar providenciando um espaço, que pudesse ser reformado ou construído, tanto no Pinheirinho ou outra área dentro da cidade, para armazenar e expor esse material. Existem algumas pessoas (Almir Zancul, coordenador do meio ambiente e o Falcoski, secretário de planejamento urbano) no governo Edinho que estão buscando um espaço para essa finalidade.

    Roberto – Como é a receptividade da prefeitura a respeito desse projeto do museu?

    Marcelo – Em virtude da mídia estar falando bastante, das outras descobertas do país, do assunto ser de interesse público, principalmente pela crianças – falou em dinossauro, as crianças arregalam os olhos – realmente a prefeitura tem visto agora com outros olhos o projeto. Há três anos, quando procuramos o pessoal da prefeitura, foi um jogo de empurra. No fim, esse jogo de empurra acabou gerando a impossibilidade da gente ter a parceria da prefeitura naquele instante, há três anos. Depois, com a aprovação do projeto pela Lei Rouanet, com a ONG Araraquara Viva, conseguimos uma visão melhor da prefeitura, pois pode-se buscar parceiros dentro da Lei Rouanet. Tem uma visão um pouco melhor agora, com esse rico material que temos em Araraquara.

    Santilli – Araraquara é conhecida internacionalmente pelas suas calçadas jurássicas. Isso significa que a cidade já é uma referência na área de paleontologia no mundo inteiro?

    Marcelo – Todos os livros relacionados a esta categoria “pegadas fósseis”, que são os icnofósseis, citam Araraquara. Inclusive, a evidência desse mamífero aqui na nossa região, talvez o único mamífero do Jurássico no Brasil, chamado Brasilichnium elusivum, numa alusão a um vestígio de um mamífero no Brasil, identificado pelo pesquisador Giuseppe Leonardi, foi tão importante essa descoberta que as rochas do Arizona e de algumas localidades onde existem arenitos parecidos com os nossos lá nos Estados Unidos são batizadas como uma categoria, por exemplo, como a rocha do Brasilichnium. Isso em referência ao que Giuseppe Leonardi descobriu aqui em Araraquara. E lá ocorrem pegadinhas parecidas, não as mesmas, é claro. É uma referência às nossas aqui.

    Lucas – Então, Araraquara definidamente é a cidade das pegadas dos dinossauros?

    Marcelo – Araraquara definidamente é a cidade do “chulé dos bichos”. Pegada por aqui é o que eles mais deixaram. Foi reconhecida internacionalmente mesmo, no meio científico pelo menos. Uma vez fui para a Flórida e comentei com um sujeito (um maluco de lá) que comercializava fósseis, vendia lajes com pegadas de lá (nos Estados Unidos o comérico de fósseis é controlado e permitido), que em Araraquara elas estavam no chão, nas calçadas. Ele sumiu por alguns minutos e voltou com umas picaretas e mochilas e disse: “vamos embora, onde fica Araraquara?” Ele queria vir aqui retirar nossas pegadas (claro, foi uma brincadeira dele)… Para você ver como esse material é importante, está próximo da gente e não se dá o devido valor.

    Santilli - Existem muitos paleontólogos no Brasil? É uma profissão promissora?

    Marcelo – É um campo interessante. Você não precisa ser um geólogo, um especialista na área. Pode ser um biólogo, um químico, um veterinário ou, inclusive, um médico. Existe um paleontólogo que é o maior especialista em aves atuais no Brasil e um dos maiores especialistas em aves fósseis do mundo morando em Taubaté (SP). Ele é um médico ortopedista. Ele também tem uma coleção enorme guardada na casa dele. Só que agora ele conseguiu, por meio da prefeitura, a construção de um museu de história natural que será inaugurado em 2005, com o material que ele tem. Ele descobriu uma ave pré-histórica em Taubaté, que era uma ave que comia cavalo. Só que os cavalos eram menores, é claro. Mas era uma ave de uns 2 metros de altura e um bico de quase 50 centímetros de comprimento. Um bicho enorme. Tem um outro que era padre e se interessou pela paleontologia. Era teólogo e se tornou professor da PUC de Belo Horizonte e hoje é o maior especialista em mamíferos fósseis do Brasil. Existem exemplos de que não necessariamente é preciso ter o curso de paleontologia para ser paleontólogo. Pode-se partir do amadorismo e se tornar um bom paleontólogo, como é o de Monte Alto, por exemplo. Se não me engano, o Sr. Antônio Celso de Arruda Campos (seu Toninho, diretor do museu de Monte Alto) é um oficial de justiça aposentado e é um paleontólogo amador que é detentor de uma coleção enorme de fósseis, que hoje vem gente dos Estados Unidos para ver.

    Santilli – Onde existem cursos no Brasil?

    Marcelo – Curso específico de Paleontologia não existe. Existem estes cursos de graduação dentro da área de geologia e biologia, e você pode fazer um curso de especialização e pós-graduação. A Unesp oferece cursos em Rio Claro, Botucatu e Bauru. E agora também pode ser feito na USP de Ribeirão Preto. Esses seriam os mais próximos em nível de pós-graduação. Em São Paulo, existe curso de pós-graduação na USP, dentro do Instituto de Geociências. E outros cursos seriam em Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, dentro das universidades federais. Não tem muito paleontólogo no Brasil. Para se ter uma idéia, aqui na região, num raio de 100 quilômetros eu sou o único. Outros estão em Rio Claro, Ribeirão Preto e Botucatu. Agora vai ter um também em Bauru. São cidades que estão tendo paleontólogos agora por causa destes cursos de pós-graduação. No Rio de Janeiro tem bastante, por causa da Petrobras. Se você fizer paleontologia dentro da área de micropaleontologia, que estuda micro-organismos fósseis, você tem emprego garantido na Petrobras, porque é a vedete do pessoal da Petrobras: procurar microfósseis que indicam petróleo. Os dinossauros já não indicam isso, mas é um ramo interessante porque se consegue contar a história da evolução da vida no planeta.

    Roberto – Então é um campo que está em aberto?

    Marcelo – É um campo que está em aberto. Tem muita coisa para se fazer, principalmente no Brasil, onde há poucos especialistas em algumas áreas. Especialista em pegadas de dinossauro, por exemplo, tem o meu orientador, mais um que concluiu o mestrado agora e espero que eu consiga também futuramente. (risos).

    Lucas – Você se considera o dinossauro dos dinossauros em Araraquara?

    Marcelo – Sei lá. Em São Carlos sou conhecido como Marcelossauro. Não porque sou velho, mas porque gosto dos bichinhos velhos.

    Lucas – Vocês gostam do desenho dos Flinstones?

    Marcelo - A diretora do Museu Voluntários da Pátria, a Virgínia, brinca com a gente. Ela liga e pergunta se é da casa dos Flinstones, só porque tem um monte de pedra encostada nas paredes. Eu sou o Fred e minha esposa a Vilma. (risos).

    Santilli -Você também tem talento para as artes plásticas. Há várias telas pintadas por você na sua casa…

    Marcelo – Estou começando. Iniciei com natureza morta, mas o tema de interesse mesmo são os dinossauros. Aqui a gente tem caneca de dinossauro, porta-copo de dinossauro, pintura de dinossauro. Falta a escultura, que um dia sai. A decoração aqui é meio de pedra, por isso que dizem que é a casa dos Flintstones.

    publicado originalmente em

    | O Caricato | número 5 | maio/2004 |

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    3 Comentários to “A verdadeira Família Flintstone”

    1. NICOLE comentou:
      17 outubro 2010 as 11:45 am

      Muito boa a reportagem/conversa! Ouvi dizer que aqui em SCarlos há pegadas de dinossauros na Catedral e no calçamento da rua Sao Paulo… Isso é mesmo verdade? Onde elas ficam?
      Abraço e parabéns pelo site!

    2. Bio comentou:
      9 novembro 2010 as 12:08 am

      Olá Nicole…

      Você poderá encontrar este fóssil em uma das colunas da entrada da catedral de São Carlos, só que são pequenas, tem que prestar atenção, olhe de dentro para fora. No calçamento há muitas pegadas. Eu já encontrei na Vila Nery um monte, na quinze de novembro tem umas marcas interessantes em frente à embrapa, se vc encontrou arenito nas calçadas, fique de olho… pois mesmo que não sejam de dinossauros, você encontrará outras marcas de chuva, de ondas, de outros insetos, aracnídeos ou mesmo vermes que andavam sob a areia em lagos preestóricos. Existe um guia feito pelo prof. Bispo que está a disposição no Departamento de ecologia com o prof. Marcelo. Neste guia há endereços e descrições de pegadas espalhadas pela cidade. É muito bacana valorizar este material, olhando para o chão em São Carlos é como olhar para o “Jurassic Park”! Dá para aprender muito sem ter que correr dos Tiranossauros comilões!

      Abraço e boa exploração!

    3. IsaReeves comentou:
      1 maio 2011 as 5:59 pm

      Faço ciências biológicas na UFSCAR e tive aula com o Marcelo. Mto bom professor…sou de Araraquara e vivo tentando achar umas pegadinhas…

    Comentários