
O Verdadeiro Zé do Caixão

Foto: Lucas Lima
por Carlos Augusto Donato
in memoriam
Não é um conto de terror. Não se trata de relatar o insólito, mas o inevitável. Afinal, quem vai cuidar dos mortos? Alguém tem que fazer isso! E aqui mesmo em Araraquara temos um exemplo de dedicação ao trabalho de cuidar de sepultamentos, sossego daqueles que se foram.
Claro que o sossego maior é para os que ficam. Eles querem sempre ter às mãos, desde informações sobre os mortos, sejam parentes ou simples curiosos, até a segurança de chegar às sepulturas e vê-las como deixaram.
A reportagem de O Caricato foi procurar pelo administrador dos cemitérios municipais, Antonio Donizete Galeazzi, o Zico. Não há melhor lugar para encontrá-lo que no Velório Municipal, onde funciona o escritório da administração do Cemitério São Bento. Zico administra também o Cemitério das Cruzes. Ele é chefe de sessão e trabalha também como coveiro, talvez uma das profissões mais antigas do mundo.
Araraquara possui 4 cemitérios, sendo um tradicional e os demais, cemitério parque. O maior cemitério é o centenário São Bento, localizado no centro da cidade, possui 12 mil sepulturas e guarda as almas de mais de 70 mil pessoas. Mas é no cemitério das Cruzes, também conhecido como cemitério dos Britos, que os “causos” afloram e a verdade se confunde com o ilusionário. Lá funciona o necrotério, para onde são levados os corpos das pessoas que precisam de algum tipo de identificação médica para descobrir a causa da morte ou a identidade da pessoa.
Em geral, para lá vão as vítimas de atropelamento ou morte violenta. E o Zico, até pouco tempo, tomava conta deste setor também. Mas vamos ao papo que levamos com Zico, andando pelas sepulturas do cemitério São Bento:
O Caricato – Zico, voce tem medo de entrar no Necrotério?
Zico – Não. Sempre trabalhei normalmente. A única coisa que eu não gostava é de ver criança (morta). Se eu soubesse que tinha uma criança lá, eu não entrava.
O Caricato – Voce lembra de algum caso assim?
Zico – Olha, eu nunca vou me esquecer de um caso. Uma mulher que tinha de esconder da mãe que estava grávida, ao nascer a criança, ela a matou. Provavelmente torceu o pescoço. Depois ela enterrou num terreno ao lado da casa dela. Dois dias depois eu entrei no Necrotério e vi um caixãozinho branco. Perguntei pro pessoal o que era e eles me disseram que a funerária deixou o caixão para que a criança fosse enterrada. Eu peguei a criança na câmara fria e coloquei no caixão. Quando ia fechar, ví que ela estava sem roupa. Já não tem ninguém pra acompanhar o enterro, ainda enterrar sem roupa? Não dá. Pedi para um dos coveiros ir até a sala dos milagres dos Britos para pegar algumas roupinhas que o povo deixa por lá. Vesti a criança chorando, entreguei pro coveiro chorando e preparei o local, chorando. É uma coisa que eu jamais vou esquecer na minha vida. Eu tenho filho pequeno também…
O Caricato – Voce cuidava de todos os mortos?
Zico – Não. A funerária cuida deles. Mas quando é indigente ou que tem alguma morte muito violenta, fica no Necrotério para o IML.
O Caricato – Tem gente que tem medo de acordar dentro do caixão (catalepsia). Já aconteceu isso aqui?
Zico – Não. Desde os 9 anos de idade, que eu ajudava meu pai, fechando o portão do cemitério, até hoje, nunca.
O Caricato – E no Necrotério, já aconteceu algo que te deixou intrigado?
Zico – Olha, o Necrotério tem duas portas. Eu entrei pelos fundos e vi um corpo na mesa. O morto estava com a cabeça virada, olhando pra mim, com os olhos abertos e um furo de bala na testa. Até aí tudo bem. De repente tocou o telefone do Necrotério. Ao invés de passar pelo corpo para ir atender, dei a volta por fora. Depois, voltando para dentro do Necrotério, já pela porta da frente, vi o corpo com a cabeça olhando para mim, os olhos abertos e o buraco da bala. Parecia que o corpo tinha se virado na mesa. Quando eu vi, dei uma brecada de repente. Pedi explicação do médico e ele disse que isso era impossível acontecer. Disse que talvez eu tivesse visto o corpo de outro lado.
O Caricato – E para identificação, dá muito trabalho?
Zico – Não. Eu me lembro de um caso destes. Eu cheguei no Necrotério pela manhã e na porta havia uma mulher chorando. Dizia que o corpo que estava lá era de seu filho que tinha desaparecido ha alguns dias. Eu geralmente não deixo a pessoa entrar de vez e procuro preparar o espírito delas antes. Perguntei qual era a altura do filho dela. A altura que ela falou era a do morto. Ela disse que ele tinha um olho branco, e o morto também. Abri a porta e essa mulher pulou em cima do corpo e chorava, chamando-o de filho. Não dava como segurar. Deixei ela ali. Depois de um tempo ela foi me procurar (toda ensanguentada) e perguntar o que iria fazer. Disse pra ir na delegacia registrar a ocorrência. Duas horas depois o delegado ligou pra mim e perguntou pra confirmar se havia um cavalo marinho desenhado nas costas do morto. Não tinha nada desenhado nas costas. Não era filho dela.
publicado originalmente em
| O Caricato | número 2 | agosto/2003 |
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23 fevereiro 2011 as 12:13 pm
é mentira isso é o diabo que enventa confia em deus ele que nós protejam
17 março 2011 as 8:23 pm
que isso vai por foto do meu pai ai nesse site!!!!!!!
17 março 2011 as 8:25 pm
manero