• mala
  • twitterocaricato
  • passaport
  • Bilhetes comentados

  • A Casa Azul

    por Frederico Monteiro

    Ia com oito anos, e tinha já olhado por duas oportunidades através da fechadura enquanto as primas se banhavam, tinha também estado mais junto de uma colega de classe, meio sem querer, encostada que lhe rendeu uma tarde de calafrios intermináveis, e já tinha, inclusive, estado de butuca de olho em revistas para gente mais velha enquanto a mãe  comprava o quilo da carne e o jornaleiro se desatentava com as palavras-cruzadas, quando botou reparo na casa azul em frente à casa de sua avó.

    Chamou-lhe atenção as alegres cores da fachada, os suntuosos lustres que se podiam ver quando de fora olhava-se para dentro, as lindas mulheres que limpavam a calçada pela manhã com cara de noite mal dormida e que, de tempos para cá, mostravam-se solícitas e simpáticas, e, principalmente, chamou-lhe a atenção a bela freqüência da casa. Dia e noite entrando e saindo gente bonita, uns a apertar o passo culpado, outros a assobiar melodias criadas de pronto.

    A avó, indagada pelo neto sobre o ramo de atividade da casa, não se fez de rogada e disse que ali nascia a descaração e morriam-se as famílias. Resposta que foi logo emendada pela Dona Márcia, a secretária da avó, que disse que ali também nasciam famílias, dando exemplo do garoto que vez ou outra acompanhava o dono do supermercado às missas de domingo. A avó repreendeu e o menino não entendeu.

    Ainda insatisfeito, o menino saiu à rua indagando os passantes sobre a atividade da casa azul. Responderam-lhe, entre outras coisas, que ali era lugar de chumbregâncias, e isto quem lhe disse foi o vendedor de beijus; o cara manso que atravessava a rua disse-lhe que ali era o lugar onde a cobra caolha caçava, e, indagado sobre a presa da caça, apôs a mão sobre a cabeça da criança, sorrindo-lhe faceiro; e foram lhe respondendo, cada um a seu modo, sempre a esconder da criança o naipe da profissão que ali se exercia.

    Muitos anos depois, já cansado do deboche, pois encontrara tantas respostas que chegou a especular que naquela casa não se faziam coisas importantes, resolveu ir ter com as próprias donas. Apresentou-se pelo nome, sem cerimônias, e disse o que lhe levava a bater àquela porta. Foi recebido muitíssimo bem, de modo que logo encontrava-se devidamente instalado e, ato contínuo, devidamente instruído sobre a mercancia que ali se fazia.

    Estando entendido, e deveras espantado, resolveu entender-se outras vezes mais, e ali voltou tantas vezes quanto achou necessário para afastar sua curiosidade de moço. E assim foi entendendo, entendendo, entendendo, de modo que, anos depois, já era de todo entendido. Neste tempo, conheceu uma moça do colégio, que, como ele anos atrás, não sabia que tipo de mercancia se fazia na casa azul. Casou-se e foi morar mais perto da cidade e mais longe da casa azul. Bem longe. E dado por entendido, voltou à casa azul, desde aquele dia até o de sua morte, uma única vez, vez que foi sob o diploma de doutor, especialista em doença de senhoras, ofício que foi aprendendo desde muito moço, atender às pressas uma moça que estava aumentando a família de algum dono de supermercado da cidade.

    Acudida a moça, feitas a prescrições de praxe, voltou o doutor para perto da cidade, perto de sua linda menina, que ficava cheia de friozinho na barriga toda vez que o querido saía às pressas acudir sabe-se lá quem. E o friozinho tornou-se gelo quando o filhinho, já com oito anos, indagou-lhe sobre uma certa casa azul do outro lado da cidade.

    publicado originalmente em
    | O Caricato | número 3 | outubro/2003 |

    Mais Contos

    « | Inicio | »

    

    Comentários