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  • A crise do jornalismo regional

     

    por Francisco Rolfsen Belda

    Seria triste, se não fosse bola cantada. Muitos jornais do interior parecem viver em crise constante. Em vários deles, falta, antes de tudo, profissionalismo. E isso porque faltam recursos, porque faltam anúncios, porque faltam leitores, porque falta dinheiro no bolso do povo. É a crise, dizem. E é geral.

    Boa parte disso é verdade. Mas há também algo errado nesse raciocínio. Errado porque simplista. Simplista porque cômodo, acomodado.

    Fazer um bom jornal custa dinheiro, é claro. Bons repórteres não trabalham por qualquer contra-piso salarial. Da mesma forma, bons anunciantes (fiéis e com fundo no banco) não colocam dinheiro em qualquer tipo de publicação. Até porque o discurso dos departamentos comerciais que empregam o lema “anunciar é investir” já não cola tanto. A questão maior é anunciar onde, e sobretudo para quem.

    A grande verdade, hoje, é que os leitores são cada vez em menor número. Processo histórico inexorável. E os leitores que restam – esses sim verdadeiramente leitores, porque incondicionais – são cada vez mais seletivos: não têm tempo para leituras dispensáveis.

    Quando um jornal deixa de investir em grandes reportagens, quando seu conteúdo é quase todo tomado de agências externas, quando seus profissionais são mal remunerados, quando seus mentores estão mais preocupados em agradar pequenos políticos e empresários do que em compreender os descaminhos do homem e do mundo contemporâneo, então esse jornal perde sua função essencial, nivela-se por baixo.

    Há alguns sintomas que podem ajudar a vestir ou despir-se da carapuça. Quase sempre um jornal que perde credibilidade junto a fontes qualificadas é um jornal ruim. A crença na supremacia estratégica do departamento comercial frente à redação é também um mau sinal. Diretores ou donos do jornal que são mais requisitados em coquetéis e festas promocionais do que em seminários acadêmicos e intelectuais podem estar certos: estão no caminho errado.

    Acho que, nessa altura do texto, algum raro leitor (sim, isso vale pra todos) deve estar atribuindo estas críticas ao espírito de quem desconhece o mundo real, o mundo dos “negócios”, como dizem – apesar de “economia” e “realidade” terem nada a ver.

    Mas também não é por aí: sei quanto custa cada letra impressa numa edição diária, assim como percebo o dinheiro que muitos empresários de comunicação desperdiçam ao forjarem, em suas vidas particulares, um padrão de vida e de consumo que os aproxime de quem tem poder, qualquer tipo de poder.

    Creio que, crise a mais ou crise a menos, sempre há uma parcela considerável da população que não vive sem jornal. E erram os jornais que pensam em conquistar esse público com bastidores de novelas ou fotos ensangüentadas. Gente que gosta disso já parou de ler jornal faz tempo. Telefonemas às redações cobrando vulgarizações editoriais dizem pouco. Até porque leitores de verdade são muito pouco interativos: se não gostam de algo, simplesmente tentam outra publicação, mais próxima de seus interesses informativos, mais aguçada ao interpretar tendências e mais madura ao opinar.

    Leitores de verdade – que assinam duas ou três revistas, pelo menos um jornal nacional, que acessam a internet diariamente, que lêem livros, enfim, que investem em seu próprio repertório intelectual – esses leitores perderam o respeito por jornais locais. No máximo, se interessam por atualidades: programação de cinema, teatro, essas coisas. Raras exceções.  

    Minha idéia é que se faça um jornal realmente bom, com profissionais bem remunerados e matérias de qualidade. Bons leitores virão. E com eles, os anunciantes. E daí, o dinheiro.

    Fazer bom jornalismo é condição necessária para uma grande empresa jornalística. Não é conseqüência. Esperar a crise passar é para sempre. Esperar, então, pra quê?  

     

    publicado originalmente em

    | O Caricato | número 3 | outubro/2003 |

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