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  • Ausência

    por Frederico Monteiro

    O que há, está de novo a fazer nada, e eu estava, ainda que movimentasse meus braços e, por ora, meu pescoço, podia-se dizer que estava a fazer nada. Mas que malandrinha, depois de tanto tempo sumida aparece com esses dizeres; podia, quem sabe, dizer-me olá, bom dia, como está, mas não, vem perguntar-me se estou a fazer nada novamente. Além disso, ela esquiva-se, vai para lá e para cá, escondendo-se dos meus olhos, como se fosse devora-la, e é de se entender que assim acreditasse, sou bem maior, e ela bem menor.

    Caso para se pensar era o fato de ela insinuar que eu andava, continuamente, a fazer nada. Como pode ela saber, andou tanto tempo ausente, e disse-me aquela vez que sumiria para sempre. Percebe-se que não sumiu, continuou por aí, a bisbilhotar-me, a acompanhar-me apenas com os olhos travessos, e agora fica quietinha no chão frio, querendo que lhe jogue uma coberta. Não jogo, quero que vá ainda hoje procurar outro que lhe cubra, Não vou, fico por aqui, escondida, nunca me achará, Ainda encontro onde se esconde, e pronto. Mas ela não parecia preocupar-se, ficava a olhar, olhar com os olhinhos pequenos, sem piscar, sentindo a fria goteira cair em seu corpo igualmente frio.

    Fica dito que certa vez ela apareceu por aqui, e desde então vem ver-me quase todos os dias, às vezes espiando de longe, outras chegando-se mais perto, sempre trêmula, como se fosse dar-lhe um safanão, talvez a matasse, ia acreditando nessas coisas a coitadinha, mas não, nunca lhe faria maldades, ainda que trouxesse sua família para viver conosco, sim, certa vez permiti que entrasse de vez em casa e se instalasse, mas que ficasse quieta enquanto eu fosse trabalhar, e à noite, então conversaríamos. Ainda que trouxesse sua família, pai, mãe, irmãos, que poucos não devem ser, ainda assim entenderia. E continuaria a amá-la.

    Nunca quis traze-los, sempre desconversava, dizia que não interessava trazer a família para junto, queria mesmo estar só comigo, mesmo que fossem aqueles poucos minutos, mesmo que  lhe faltasse um pouco de atenção nos dias em que eu chegasse cansado. Com o tempo veio a cumplicidade, e ela a dizer-me que andava a fazer nada. Um dia irritei-me e resolvi aparecer menos. Sim, aparecia de vez em quando em meu próprio apartamento, arrumei-me por aí, mas fico devendo dizer onde e com quem, pode ser que certa vez a malandrinha caia por perto dessas linhas e leia tudo. Mas voltei, louco de saudade. Chegando, já não mais a vi, e assim foi, um mês inteiro de ausência, dava o troco pelo meu sumiço. Desesperei-me, e não agüentei, ainda mais sabendo que era ela espertíssima, mas fiz, olhei no obituário do jornal. Dia após dia lendo o jornal e nada, nenhuma notícia dela. Talvez nunca fosse morrer, já há tanto tempo vivendo comigo e não morreu, que mal havia em perambular por aí, quem sabe encontrou alguém que lha cubra nas noites frias, eu nunca o faria.

    E hoje aparece a tal, toda serelepe, rastejando-se pelo chão, surpreendendo-me com o jornal no colo, sentado no vaso. O que há, está de novo a fazer nada. Estava eu a mexer os braços, o pescoço, a correr os olhos pelo papel, e corria também o coração, aceleradísimo, e a razão, ah, esta ia longe, muito longe, sem crer que podia alguém se apaixonar por uma lagartixa, uma velha lagartixa.

     

    publicado originalmente em

    | O Caricato | número 4 | janeiro/2004 |

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