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  • Entrevistão com Donatão

     

     

    ilustração: Lucas Lima

    por Carlos Augusto Donato

    in memoriam

     

    Nosso entrevistado desta edição é muito conhecido na cidade. Não há um só cidadão araraquarense que não tenha olhado para ele pelo menos uma vez. Ele faz marcação cerrada sobre nossas vidas e parece não ter fim. Com mais de 60 anos, ele insiste em viver na região central da cidade, guardando o mesmo estilo de vida que o consagrou pelas ondas da Rádio Cultura de Araraquara. Sua aparição no meio da programação para dar a informação tão esperada por todos – ou pelo menos por grande parte da população – era  épica e o improviso o tornou famoso.

    Muita gente já sabe de quem estamos falando e, é claro, não há necessidade de guardar em segredo o seu nome e o bate papo que tivemos. Claro que não foi muito fácil, mas é preciso ter força de vontade, braços fortes e equilíbrio ao entrevistá-lo, já que ele não arreda o pé de onde está. Acompanhe o nosso bate papo com o Relógio da Lupo!

    _____________________________________________________

     

    Repórter – Bom dia Senhor Relógio! Como o senhor apareceu na cidade?

    Relógio – Eu não apareci!  Eu nasci aqui mesmo em Araraquara. Exatamente onde estamos hoje. Mas ainda que mal lhe pergunte, o que faz aqui em cima?

    Repórter – Eu sou repórter e quero fazer uma entrevista com o senhor para O Caricato.

    Relógio – O Caricato? É um jornal? É do Paulo Silva ou do Roberto Barbieri?

    Repórter – Não!! É uma revista feita por uma equipe de jovens jornalistas e desenhistas.

    Relógio – Mas que fim levaram O Diário da Araraquarense e O Imparcial? Estes dois eu conheci muito bem, pois a leitura deles era obrigatória dentro dos corredores da fábrica que tinha aqui.

    Repórter – O Diário fechou, mas O Imparcial continua funcionando como sempre.

    Relógio – E o Roberto Barbieri e o Paulo Silva?

    Repórter – Bem, eles estão fazendo jornal juntos hoje! Com certeza num lugar melhor.

    Relógio – Me conta o que mudou de fato na cidade, pois daqui de cima eu só tenho uma panorâmica geral. Não sei da maioria dos fatos que acontecem por aí, nos meandros. Depois que a fábrica fechou, fiquei esquecido. Mas nunca esqueci de marcar a hora certa.

    Repórter – Peraí! Eu estou aqui para fazer as perguntas e não para responder a um inquérito. Vamos fazer o seguinte: primeiro fazemos a entrevista e depois eu te conto o que mudou na cidade. Tá combinado?

    Relógio – Tá fechado.

    Repórter – O senhor ficou conhecido também pela Rádio Cultura. Porque?

    Relógio – Olha meu caro. Eu sempre tive prioridade lá. Por determinação da diretoria da emissora eu é que deveria dar o grito e anunciar para a cidade que era meio dia.

    Repórter – Como isso começou?

    Relógio – Os estúdios da Cultura eram improvisados, no começo. Bastava o locutor colocar o microfone para fora da janela e lá estava eu marcando o meio dia. Na verdade eu anunciava o fim do turno da manhã na fábrica de meias. Como todo o prédio e eu tínhamos sido construídos para deixar uma marca na cidade, meu grito não atingia todos os quadrantes, contrariando o desejo dos meus criadores. E com auxílio dos microfones da Cultura, isso era possível.

    Repórter – O senhor lembra de como isso acontecia, com detalhes?

    Relógio – É claro. Passo o tempo todo aqui em cima sem fazer nada. Tenho apenas minhas memórias para viver comigo nesta torre. Pela Rádio Cultura, na década de 70, por exemplo, tínhamos um programa de esportes que começava às 11 horas. Era a Janela Esportiva, criada pelo cronista Sidney Schiavon. Às 11 e meia começava a Parada de Notícias. Um nome que se destacou neste programa foi de Geraldo Polezze. Aí eu entrava ao meio dia e anunciava a metade do dia. Enquanto eu gritava uma voz dizia: “Em Araraquara são 12 horas. O Relógio instalado nos altos da fábrica de Meias Lupo também está assinalando para todo o Brasil, pontualmente meio dia”. Foi assim que fiquei famoso no rádio.

     

     

    foto: Carlos André de Souza

    Repórter – Mas não pára aí?

    Relógio – Claro que não! Eu sempre fui referência na cidade. Cheguei a ser o prédio mais alto da cidade. Sempre marquei a hora certa. Tudo rodava em torno dos meus ponteiros. Sempre pautei a vida de milhares de pessoas. Quem estava no centro da cidade, quem ia à estação pegar o trem e as saídas dos ônibus da estação rodoviária aqui no Centro. Mas parece que hoje tudo está mudado. As pessoas dão mais importância à hora e não ligam para os relógios. É uma incoerência.

    Repórter – Mas sendo um relógio, feito de peças de aço, todos esperavam que o senhor fosse burro, e não é. Por que?

    Relógio – Obrigado pelo não é. Eu fui montado na Europa e recebi lá uma grande carga de conhecimento. Fui criado para marcar a hora e sempre estudei como tudo funciona, para evitar que se tenham problemas. Então desenvolvi a capacidade de analisar, raciocinar e pensar. Mas permaneci assim, inerte, como um monte de ferro até ser instalado aqui em Araraquara.

    Repórter – Como o senhor se sente hoje?

    Relógio – Depois de passar por um momento delicado, onde esperava pelo pior, sinto-me renovado. Hoje eu estou acima de um centro de compras muito importante e sinto o pulsar da juventude que passa por aqui. Estou bem melhor, mas ainda tenho algumas reservas quanto ao desenvolvimento da cidade.

    Repórter – Que momento delicado foi esse?

    Relógio – Quando nos anos 90 a fábrica de meias foi transferida para a rodovia, eu fiquei amargando a solidão. Meus companheiros eram meus ponteiros que insistiam em marcar as horas. Até que um dia me desligaram e eu parei. Me prometeram que eu voltaria e que seria restaurado. Mas olha, estava um pouco decepcionado com o ser humano. Não senti que isso fosse de fato acontecer. Mas aconteceu.

    Repórter – E hoje quais são suas reclamações?

    Relógio – Minha principal reclamação é quanto a umas pessoas que insistem em ficar ao meu lado. São homens vestidos de mulher. Todos chamam de travestis, não é? Eu já tinha essa informação, quando fui criado, na Europa, de que isso era normal. Sabe como é primeiro mundo. Tudo é muito liberal. O que não é normal é o jeito que vejo eles abordando as pessoas. E eles ficam feios, todo deformados, com uns traseiros enormes. Não são homens nem mulheres. São seres híbridos. E olha que eu já vi muita gente importante da cidade parando o carro aí e pegando um travesti destes e levando embora.  Mas, como um relógio que precisa sobreviver ao tempo, não posso revelar os nomes. Sinto saudades da antiga Rádio Cultura, da Fábrica de Meias Lupo, dos diretores da Lupo, o Elvio, o Wilton e o Rômulo também. Como se diz “Tutti buona genti”.

    Repórter – O que o senhor espera do futuro?

    Relógio – Espero ficar marcando as horas por mais algum tempo. Espero também que todos olhem mais para mim.

    Repórter – Muito bem senhor Relógio. Essa era a entrevista.

    Relógio – Tudo bem, mas agora você vai me contar os detalhes de Araraquara. Quem é o prefeito? Onde estão os ônibus elétricos? Porque asfaltaram a praça Pedro de Toledo? Porque não tem mais aqueles grandes jogos na Ferroviária? Porque…

    Repórter – Peraí… Posso falar tudo isso, mas agora não dá! Eu tô escorregandooooooo…

     

     publicado originalmente em
    | O Caricato | número 3 | outubro /2003 |

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    Um comentário to “Entrevistão com Donatão”

    1. NORMA CAPARICA comentou:
      22 agosto 2011 as 3:46 am

      Gostei do artigo sobre o relogio da Lupo e gostaria de mandar aos meus filhos. Nao percebi como fazer para conseguir isso. Espero que possam me ajudar…

    Comentários